segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O que mais dizer depois disso?

"Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma."

Autora Marina Colasanti, que merece os respectivos créditos!

Lido e aprovado em: www.assimcomovoce.com

domingo, 15 de maio de 2011

Desejo de Presente

A casa arrumada não reflete meu estado de espírito. Não porque contém ordem, mas porque não é a ordem certa.
Olho para o banheiro, de porta entreaberta, e vejo a toalha com o vento. Apesar disso, parece pesada e cinza, mas é, na verdade, amarela.
Abro a janela do quarto e por costume dos dias espero a luz do sol entrar. Quero sentir o sol. Só não quero naquele ângulo.
Deixo-me escutar pela próxima vontade pura, daquelas que ouço com a cabeça tranquila. À sala coloco meu artista favorito para tocar. Parece que um dos instrumentos foi exterminado de cada uma de todas as músicas! E de todos os álbuns desse artista! E de todos os artistas! É como... voz sem espaço.
Resolvo aquietar o ânimo e me decido por uma água. O copo acaba, mas a sede ainda é do tamanho do copo. E depois de mais um, percebo que não diminui.
Paro, ando, chego ao sofá.
Espero o pensamento aflito acabar, mesmo sabendo que estou assim.
Congelo cada músculo até ter todo o turbilhão interiorizado.
Noto então que não percebi que estou de olhos fechados e que o que vejo não é aqui.
A cor não se faz aos olhos.
O anseio tem outro endereço.
O físico já sente como se estivesse lá.
A lembrança do movimento se faz como que depois de ido 1 ano inteiro.

Quando volto, tenho saudade.
Vou viajar.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

De mês em mês

Não sei o que há no fundo dos teus olhos
Apenas sossego no passar dos dias de espera?
O mundo rápido, cheio de fatos e escolhas
Acontecendo ao redor, correndo entre "você e eu"

Corro pra longe, pra não ficar tentado
Talvez assim eu resista em me entregar
Pra tudo isso que você representa
E que me faz fazer promessas

Quero saber o que há no fundo dos teus olhos
Deixando que sinta o quanto há querer bem
Quem sabe agora não acontece como deveria?
O começo quase acabou comigo por não ter se feito

Espero que você e o resto entendam
Que isso não foi feito pra voar
Mas pra nos fazer viajar
de encontro, mês a mês
Até a distância acabar.

domingo, 24 de abril de 2011

Pro fissão

Hoje eu bebi por voce! Brindei comigo mesmo sem achar teu copo, pelo procurado ser o meu próprio. Bebi em dobro por nós dois, e a embriaguez nem de só um me alcançou. Estou além disso, não é suficiente beber.

Sóbrio. Só, e o breu da noite de novo na sala e quarto, e cozinha(!).

Jurei tentar não sentir tua presença na falta que sinto, já tão cedo, ao adentrar minha casa. E adivinha? Nada. O nada me tomou por dentro como se quem entrasse em casa não fosse eu e sim meu vazio, meu não-eu.

Explodi em milhões de fragmentos ansiosos na minha vontade frustrada de te ver em algum lugar, fosse à minha frente, ao meu lado, ou atrás puxada pela mão que não abriu a porta. Me recompus ao primeiro passo de feliz esperança por saber que por um dia te conheci, por outro te tentei e, por mais um, conversei.

É isso, que da luz se tem a sombra e do vinho a sobriedade, do vento a calmaria e do desejo a abstinencia. É a falta, ainda presente, da permanencia constante por entre esses fragmentos religados que tenho como motivo para dizer:

O hoje, está. No ontem, estou. Amanhã, estarei?

É na incerteza das esperanças ingênuas que mora a frustração.
Mas, o que posso fazer se com a mão-na-massa me sinto assim tão ingênuo, sincero, e esperançoso? Deixar isso tudo de lado? Ok, minha razão diz que sim, mas outra parte... me impulsiona a gritar que não. E isso ainda sorrindo!
Não posso evitar meu momento de dizer: venha logo para minha vida!

Ansiosa, esperançosa, e ingenuamente, nos dois sentidos do pretexto,
Vitor

terça-feira, 19 de abril de 2011

... ... ... ... ...

O cursor fica aqui piscando, piscando, piscando... pacientemente aguardando minhas idéias, faminto por letras e palavras e na verdade o que consigo pensar é, e nada diferente, no som do vento que atravessa a janela ao meu lado. Na luz do luar que invade as frestas trêmulas da cortina e percorre as superfícies ao redor...

E aqui dentro, em algum lugar, eu revivo aquele toque do rosto aos lábios(ou seria dos lábios ao rosto?). Aquela surpresa imensa que cobre e recobre, e redescobre a superfície arrepiada de pele em mim que, com um medo tranquilo e excitante, surge sem pudor, arrependimento, ou forçada rebeldia.

E mais algumas vezes o cursor pisca... ... ... ... ... ... ...

Então me recordo da descoberta daquele tom áspero e muito sincero, cortante, agudo das palavras tão decididas em bastar com toda e qualquer declarada intenção.

Não, na verdade não foram assim, foram contrariamente deliciosas de se ouvir...

E mais outras algumas vezes o cursor pisca... ...

Pois que assim fique a fome do cursor que por tanto espera e por pouco se basta!