Onde está você?
Não importa o quanto eu busque, não importa o quanto minha alma queira, não te encontro.
Seja no espelho, ao meu lado, ou do outro lado da cama.
Num passado recente, ou distante.
Você não está lá.
Não está na primeira, nem na segunda, nem na última namorada.
Procuro e não te encontro na amizade sincera da mulher bonita que se diz interessada num almoço de terça-feira de folga do trabalho.
Olho atento na tela do skype mas... não sei, não é você.
Perco o copo no gole, olhando pra fora da janela, e perco o brilho dos carros imaginando por onde estarão seus pés agora, pisando em qual chão, ou escada, ou pedal de freio, ou sandálias de couro, areia da praia, ou na trilha de neve, ou até quem sabe balançante no ar?
Acompanhado? Sim, eu queria. Possível? Mas como, se não encontro você? Eu queria...
O que quero é tua companhia. Quero teu sossego. Quero teu abraço e tua presença sem falar muito, Ou falando muito sobre o seu dia, seus amigos, família, ou qualquer coisa... e me perguntando de volta como estou e como foi o meu dia. Me instigando a falar de mim, por estar interessada em mim e em meus sentimentos, de verdade.
No momento dos sonhos, você está lá, linda, correndo comigo, no campo dourado, de faixa no cabelo e vestido azul. Daí acordo e.... pra onde você foi?
No café da manhã? Não. Só a xícara de café amargo, pra adoçar o dia.
No furor da tarde encontro apenas obrigações e prazeres, sem muito espaço para pensar ou sentir.
E chega a noite do final-de-semana brincalhão!
Num barzinho? Cadê? Escondida na imagem distorcida do canecão de cerveja? Não vi, bebi.
É, fugiu de novo.
Virou noiva de alguém. Quis ficar sozinha pra se conhecer melhor. Saiu com as amigas pra fofocar a vida alheia. Ou foi chorar em depressão no travesseiro até pegar no sono por não saber o que quer. Me conheceu achando ser o certo sem estar no momento certo. Acho que era demais ou de menos. Gostou mais ou gostou menos. Se interessou por outro desconhecido e partiu. Me viu, se interessou, me conheceu e sumiu da noite pro dia. Não gostou de alguma mania minha e se perdeu com a opinião dos outros. Quis que eu seguisse algo que não acredito e não suportou a dor de uma única diferença.
Estas não são você.
Onde está você?
"Ser alguma coisa definida te limita. Ser nada é se negar. Ser uma não-coisa porém..." Kimio
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
domingo, 9 de setembro de 2012
O dia de hoje
Hoje é um ótimo dia para escrever um obituário.
Ar parado. Tempo quente. Sons distantes. Pessoas próximas distantes e as distantes mais distantes ainda. Quietude da alma. Invencibilidade.
Um equilíbrio retomado como se nunca tivesse atingido esse ponto antes, pseudo-falso. Assim como a loucura da loucura que quase nos deixa normais de novo...
Não há volta. Não há reviver.
O tempo só vai. O tempo só, vai.
E a sensação de tudo que queria ter feito fica mais viva do que de tudo que de fato fiz. E o que fiz fica como lembrança perdida esvanecendo na tepidez da memória.
Cada agora é pra ser agora. Não serve para amanhã ou para ontem. O ontem serve ao agora. O amanhã serve ao agora. Porque o próprio a si não serviria?
Hoje é um bom dia pra se escrever um obituário. Obituário do agora, do hoje, obituário do corrente, do que acaba por ser o agora a cada instante, e que se vai para sempre, na morte eterna para que o próximo chegue, sempre como sempre faz.
Cada instante abre o próximo e se fecha em cortesia a este que o segue.
Tudo que acaba começa algo em seu lugar.
Te vejo do outro lado, certo?
Até o próximo texto
Ar parado. Tempo quente. Sons distantes. Pessoas próximas distantes e as distantes mais distantes ainda. Quietude da alma. Invencibilidade.
Um equilíbrio retomado como se nunca tivesse atingido esse ponto antes, pseudo-falso. Assim como a loucura da loucura que quase nos deixa normais de novo...
Não há volta. Não há reviver.
O tempo só vai. O tempo só, vai.
E a sensação de tudo que queria ter feito fica mais viva do que de tudo que de fato fiz. E o que fiz fica como lembrança perdida esvanecendo na tepidez da memória.
Cada agora é pra ser agora. Não serve para amanhã ou para ontem. O ontem serve ao agora. O amanhã serve ao agora. Porque o próprio a si não serviria?
Hoje é um bom dia pra se escrever um obituário. Obituário do agora, do hoje, obituário do corrente, do que acaba por ser o agora a cada instante, e que se vai para sempre, na morte eterna para que o próximo chegue, sempre como sempre faz.
Cada instante abre o próximo e se fecha em cortesia a este que o segue.
Tudo que acaba começa algo em seu lugar.
Te vejo do outro lado, certo?
Até o próximo texto
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Passo marcado
Na escuridão de meus pensamentos serpenteia uma lembrança de uma noite fria, azul e impalpável. Como se fosse uma névoa preenchida com murmúrios gelados de uma palavra ríspida, sigilosa.
Noite seguinte ao crepitar das velas que apaguei após um vinho degustar só para ponderar sem emoção o que tanto necessitava discernir. Dividir as coisas entre cabeça e coração, taça e vinho, pavio e vela, faísca e cinza.
Não entendo essa necessidade sua do distante.
Não entendo essa forma estranha de passar.
Não quero entender como pode ser tão independente de mim, tempo.
Noite seguinte ao crepitar das velas que apaguei após um vinho degustar só para ponderar sem emoção o que tanto necessitava discernir. Dividir as coisas entre cabeça e coração, taça e vinho, pavio e vela, faísca e cinza.
Não entendo essa necessidade sua do distante.
Não entendo essa forma estranha de passar.
Não quero entender como pode ser tão independente de mim, tempo.
quinta-feira, 8 de março de 2012
sábado, 3 de dezembro de 2011
Conviver sem o Cálculo

Conviver é sem dúvida uma coisa estranha.
Estranha porque a palavra indica um "ficar próximo". Conviver, "viver com". Mas se desmontamos a palavra assim, que nem a árvore se desmonta das folhas no outono e enxergamos sua estrutura óbvia e imprevisível, o "com" ainda é claro, porém o "viver"...
Bom, o viver é uma coisa estranha.
Estranha porque não é só aquilo que parece, de acordar, respirar, comer, dormir. É muito mais que isso! Não é apenas se informar, ler, conversar, ligar, se divertir. Ainda é mais que isso.
Talvez seja algo que também inclui a preguiça, a falta de ar, a fome, a insônia. Mas, deve ser mais que isso. Talvez também seja feita de esquecer, ficar quieto, ignorar, ficar sério. Acho que ainda é feita de mais do que isso.
Esse "resto" de coisas que compõem o viver são manifestações dos sentimentos e anseios do dia-a-dia, como o crescer das folhas e sua vigorosidade...
Mas sentimentos e anseios são coisas estranhas, pois nos deixam à mercê de qualquer vento leve que nos arranca as folhas e nos expõe o imo. Aí ficamos nus, com as mãos desesperadas evitando consequências. Apenas galhos balançando para não quebrar. E a origem desse par, muitas vezes desastroso, é tão profunda e constituinte quanto a própria existência física do tronco central. São nascidas desde a semente, compondo um tempero na vida, que se recheia de aventuras, medos, conquistas, decepções, felicidades, crescimentos, e outros galhos cheios de ramificações que cobrem o corpo pivô, e protegem e também enfeitam o todo.
Às vezes perdemos folhas, às vezes esquecemos galhos, às vezes lutamos tanto e por tanto tempo para conquistar um ramo importante, que quando o conquistamos, ele simplesmente apodrece e cai, abrindo um vazio gigantesco que mostra até um pouco d´alma, dando a impressão de que estamos vulneráveis e com uma parte morta dentro da gente.
Mas a parte que apodreceu já caiu não é? Então... fazer o que? Sofrer? É uma opção, mas que tal traçar novos ramos, com a mesma intenção e sentimentos que fizeram o galho antigo crescer, no espaço daquele, para preencher essa coisa estranha, que pode acabar sem mais nem menos, assim ó!?
Estranha mesmo essa coisa de dúvida do conviver...
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